Coluna do Presidente, nº 17
por Philipe Deschamps, 02 de julho de 2007
Uma noite no Aterro com MaurícioEle chegou de mansinho, como quem não quer nada, e foi logo se juntando ao elenco do Ellite que se arrumava nas arquibancadas do Aterro para o jogo contra o Cidade Nova. Olhou de soslaio e emendou: "Vocês são de alguma academia?" Não perdi tempo e respondi: "Só ele ali", disse, apontando para o lateral Guil, o mais encorpado do grupo. Ele não entendeu a brincadeira e continuou rondando a área, lançando uma série de perguntas sobre o Ellite. "De onde é o time de vocês? Onde é a sede? Vocês jogam sempre aqui?", perguntava ele, com visível dificuldade de articulação verbal. O homem, que aparentava mais de 50 anos, era gago, o que tornava ainda mais engraçada suas interlocuções ao time. E as perguntas foram se sucedendo, até que veio a derradeira: "Qual a idade de vocês?". Pronto. Era o que faltava para percebermos que aquele senhor, meio maluquinho da cabeça, estava achando que era olheiro de futebol.
Foi a senha para começarmos a encarnar no pobre coitado, que se divertia a beça com a gente, rindo desenfreadamente das nossas brincadeiras. Não precisou muito tempo para Alex e Juninho (principalmente os dois) iniciarem as provocações. "O número 17 (Juninho) tem 20 anos", apressei-me em dizer. "Fica de olho nele, porque o garoto tem futuro", acrescentei. E assim ele foi perguntando a idade de todos, dizendo que era olheiro do Madureira e que iria ver nosso jogo a fim de indicar alguns jogadores para um teste no clube, onde ele dizia conhecer uma pessoa que conhecia o gerente de futebol.
O nome da fera? Não poderia ser mais apropriado: Maurício. Não perguntei o sobrenome, mas agora me arrependo. Já imaginaram se fosse Cunha? Seria perfeito demais, mas voltemos à história, foi apenas uma divagação. O tal do Maurício disse que ia ficar de olho no Juninho, no Alex e também no Bruno, que, segundo ele, tinha porte de jogador. A partida já ia começar e todos já estavam em campo. O homem se acomodou na arquibancada, até que Alex o chamou aos gritos e começou a fazer gestos obscenos com a boca. O olheiro me perguntou o que era aquilo, pois não estava entendendo. Olhei sério pra ele e falei: "Ele é gay. Por isso faz essas coisas. É um gay debochado". Maurício acreditou e não teceu comentário algum.
Chamei o Marreco e pedi pra ele ficar de olho no número 16 porque era muito bom de bola. Ele olhou meio desconfiado e perguntou a idade. Falei que ainda ia fazer 23 anos. Ele virou e disse: "Ah não. 23 ele não tem não", disse de sopetão para cairmos na gargalhada em seguida. Bola rolando. Eu do lado de fora só ficava provocando ele: "E aí, tá gostando de quem?" "Do Juninho e do Alex. Já tenho até um apelido pra ele: Juninho Carioca", disse, perguntando em seguida a idade do Alex. "22 anos", falei. "Ih, a idade do Alex me desanimou", resmungou baixinho.
Segundo tempo
Final de primeiro tempo. No intervalo, as coisas ficaram ainda mais engraçadas e não tivemos nem tempo de falar sobre o jogo e a reação do Cidade Nova. O velho adentrou o campo e foi logo dizendo a sua impressão sobre os jogadores. Depois de algumas provocações de Alex, que começou a duvidar da sexualidade do homem, Maurício confessou, rindo: "Tenho 53 anos e nunca vi uma mulher nua". Pronto. Gargalhada geral. Começamos então a encarnar no velho que estava interessado não no futebol de Juninho e Alex, mas sabe se lá em quê...
Aproveitei a deixa do olheiro de Madureira para ratificar a informação que havia dado a ele no intervalo: "Seu Maurício, o Alex é gay". Ele olhou e disse, com toda a convicção do mundo: "Eu fico de quatro se o Alex for gay!", duvidou o velho. Nova gargalhada geral. Bola rolando no segundo tempo e o homem permaneceu ali, imóvel na arquibancada, com sua barriga proeminente e um cabelo digno de registro: ele só tinha cabelo de um lado, comprido, e a todo momento tirava um pente do bolso para acertar as madeixas, jogando-as para o outro lado na tentativa de encobrir a careca. Parecia um "Bozo" com cabelo apenas do lado esquerdo. Engraçadíssimo.
Final de jogo e ele novamente entra em campo para conversar. Parecia ser nosso conhecido de longa data, tamanha era a intimidade dele conosco. Foi logo me dando um papelzinho amassado com um telefone celular e o nome do tal gerente de futebol do Madureira. Disse que eu deveria levar o Juninho, o Alex e o goleiro Renato para um teste. Eles tinham futuro, enfatizou. Pra completar, o zagueiro Marcio havia chegado há pouco tempo no Aterro e entrou também nas gozações. Tirou uma máquina digital da mochila e começou a registrar fotos do velho com o pessoal.
Personagens
Juninho foi trocar de roupa e tirou o short, ficando só de cueca. O velho deu uma "manjada" no meio-campo, o que rendeu mais alguns minutos de risos. Ao final, Maurício foi embora, deixando em todos nós uma sensação gostosa de que a noite tinha valido a pena, proporcionando momentos divertidíssimos e inesquecíveis. Fica no ar aquela certeza de que o Aterro é pródigo em revelar não só jogadores de futebol, mas também figuras inacreditáveis, engraçadíssimas, dignas de comédia pastelão.
Além desse olheiro do Madureira, tivemos o Domingos Guerreiro, que subiu na árvore como uma aranha para resgatar a bola; o Edmílson, aquele juiz que trocou a arbitragem de 10 partidas pelo celular quebrado do Guedão e que depois virou diretor de quiosque; o juiz baixinho que ficou revoltado quando perguntaram onde estava a outra metade do árbitro; o Perivaldo, popular Quiñones, que até hoje tem escolinhas de futebol no Aterro; o dono de um time amador da região, que até hoje acredita que ia jogar na Espanha sem saber sequer dar um chute; o Margarida, lendário juiz que, apesar de gay assumido, apitava com a maior pose e não gostava de brincadeira; o Nêgo, que conseguiu fazer aparecer, como ninjas, cinco gorilas para pegar um ou dois que o haviam agredido; o "neguinho" que entrou no bueiro para religar as luzes do Aterro, apagadas por causa do apagão (afinal de contas o show tem que continuar); o Boca, que ganha a vida comercializando os diversos horários de que dispõe no Aterro, etc, etc, etc... É como me disse o Marcio PCC outro dia: "Se você acha que já viu de tudo na vida, passa uma semana indo ao Aterro à noite". Realmente tenho de admitir, e imperdível, é impagável. Não tem preço.
Ah, ia me esquecendo... liguei pro telefone no papelzinho que o tal do Maurício me deu. E não é que o tal gerente de futebol do Madureira existe mesmo! Troquei algumas palavras com ele, mas acabei desligando o telefone, porque o cara me pareceu uma pessoa séria, diferente do olheiro dele. Quando ele me perguntou como havia conseguido o telefone dele, disse: "Esquece... foi um maluco que deve ter conseguido seu telefone e apareceu lá no Aterro se achando olheiro do Madureira". O cara não entendeu nada.
***
RAPIDINHAS
- O ex-jogador Maurício (que não é o mesmo aí de cima) tem uma turminha de amigos que é conhecida como "na brasa". O motivo do apelido é pra lá de inusitado...
- Guil teve talvez sua melhor atuação do ano no último jogo. As aulas de futevôlei feminino estão dando resultado.
- O zagueirão Márcio apareceu no último jogo para torcer pelos amigos. Foi a primeira aparição do jogador num jogo do Ellite depois da grave contusão. Ele demonstrou todo seu carinho e amor pelo time. Valeu Márcio!
- O gol 500 dificilmente passa do próximo jogo, que será contra o Pactual. Falta apenas um. TODOS estão convidados para presenciar o momento histórico.
- O ex-jogador Odraude liga para avisar que não costuma enfeitar a rua em época de festa junina. "Faço apenas quando tem Copa do Mundo", defende-se ele. Tá registrada a correção, Odraude.
ENCONTRO INESPERADO
Algumas colunas atrás, perguntei a respeito do paradeiro do 1º goleiro da história do Ellite, o baixola Carlos. Qual a minha surpresa quando, na última sexta-feira, fui à farmácia que fica praticamente em frente à minha casa??? Encontrei com ninguém menos do que o próprio, atrás do balcão de atendimento. Ele foi logo perguntando se ainda jogávamos juntos e se o time ainda existia... Disse que sim e ele foi lembrando aos poucos do pessoal: recordou apenas de Chaves, Guil e Guedão.
Dei o endereço do site a ele, que ficou todo bobo em saber que havia a foto dele com as estatísticas completas (19 partidas com 76 gols sofridos em 1999). Apesar de trabalhar à noite, ele prometeu aparecer no Aterro um dia para reencontrar o pessoal e, quem sabe, jogar um pouco para matar as saudades. Te cuida, Renato!